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Saudades de mim

Nesses últimos dias eu andei revolvendo músicas, momentos, amigos, lugares, cheiros, sensações do passado de uma forma que há muito não fazia. Acho que estou com saudades de mim.

Aeroportos da vida

Aeroportos da vida

A vida vai carregando a gente para lá e para cá, mudando nossos hábitos, distorcendo nossas mentes, enraizando conceitos, nos deixando mais conscientes mas mais cautelosos. Vamos aos poucos trocando de opiniões, atualizando objetivos, mudando de lugar, conhecendo gente. A transformação é quase sempre linear, contínua, imperceptível no dia-a-dia. Vestibulares, formaturas, promoções, casamentos, são eventos que apenas simbolizam os movimentos lentos da nossa vida.

Poker no Paraiso

Poker no Paraiso

De repente você se pega lembrando de coisas que fazia e dizia, de pessoas que eram importantes, de idéias e músicas que achava geniais, de dilemas que lhe tiravam o sono, e se surpreende de ser você o personagem daquelas histórias. A nostalgia seria quase uma fantasia da nossa cabeça, não fossem as fotos nos ábuns empoeirados e os discos esquecidos na prateleira, únicas provas concretas de que o passado realmente aconteceu.

Fernando Moraes

Fernando Moraes

Pois às vezes me dá saudade daquele cara. Ou melhor, daqueles caras. O JC de 98, de 2001 de 2003, de 2005, o JC do Brasil, do roteiro gastronômico e noites de pôquer com o Rogério, o Páris e a Maggie, das sessões musicais com o Felipe e a turma da ESPM, dos jantares no New’s com o Edu depois da GV, dos churrascos na Riviera e na casa do Rondon, dos papos com a Cris Prado, do hino do União São Simão, da Banda Treze, na derrota do Brasil para a Itália, dos natais no Rio, da subida da Imigrantes com o Thiago nos domingos à noite, dos shows da Cowbell no Corleonne, das idas à Cantareira com o Toddynho e o João Paulo.

Claudiomiro e Thiago Reimao

Claudiomiro e Thiago Reimao

Por que eu tenho saudades de mim mesmo? Teria eu sido mais feliz naqueles tempos? Certamente que não. Mas esses JCs me trouxeram para onde eu estou hoje. Todas aquelas histórias sobrevivem apenas na minha memória – sim, as pessoas que estavam comigo também são outras hoje – e são de fato a única coisa que a gente leva dessa vida.

Karaoke - Maggie

Karaoke - Maggie

Talvez para mim seja pior, pois eu não tenho mais acesso a essa gente toda. Um vôo de 11 horas me separa da oportunidade de sentar com eles de novo, naquelas mesmas cadeiras de outrora, para relembrar esses momentos. A impossibilidade do reencontro exacerba as saudades. As saudades do meu país. As saudades dos meus pais. A saudade de mim.

Em algum ponto do futuro eu também terei saudades desse JC de 2008, aquele de Londres, começando uma vida com a Denise, que assistia Grand Designs, que viajou para Dubai e que escreveu posts como este.

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A saudade é um dos temas mais recorrentes destas páginas, desde os tempos de fotolog lá em 2005. Já escrevi sobre o que realmente é saudade, e tipos diferentes de saudade, a saudade do presente, o reverso da saudade.

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Marcelo Rondon

Marcelo Rondon e JC

Pois é. Marcelo Rondon esteve aqui de novo. É bom receber um grande amigo, especialmente logo depois de voltar de casa (pois é exatamente quando volto de casa que tenho mais saudades). Falamos sobre nossas vidas, nossos planos e nossas carreiras, numa peregrinação por pubs que começou em Holborn, rumou para Temple, pousou sobre o Tâmisa, e culminou ao lado na Strand ao lado do Savoy e da Booz Allen.

Pode ser que eu tenha falado coisas demais para o Rondon, mas para que são os bons amigos senão para ouvir as coisas que a gente não conta para mais ninguém? Como faço com meus melhores amigos, tentei – em interesse próprio – persuadí-lo a vir passar uns tempos em solo Europeu. Não sei se tive muito sucesso, “meu lugar é lá”, escutei, mas senti certa hesitação. Posso ter plantado uma semente.

Disse a ele “meu lugar é lá também apresar de tudo, eu não vou viver para sempre aqui”. Mas não soube dizer quando volto. “Algum dia”, acredito terem sido minhas palavras, “eu poderia estar voltando agora, para uma honrada vida pós-MBA perto de quem quero bem”. “E porque resolveu ficar?”. Pergunta difícil, mas excelente. Me fez lembrar de quando tomei a decisão, em Novembro. É uma história que, agora, vale a pena contar.

O fato é que tive dúvidas seríssimas, graças a Deus tive a opção de escolher entre dois futuros igualmente interessantes, mas completamente diferentes, em Londres ou em São Paulo. A dúvida me atormentava. Então resolvi imaginar o dia da minha volta definitiva ao Brasil depois da formatura.

Esse dia seria para JC o dia de Noé, pela dolorosa missão de selecionar os objetos que retornam na mala-arca para o Brasil. Cada coisinha conta uma passagem valiosa da viagem de 2 anos e pouco, implorando para irem comigo. Infelizmente não há lugar para todas. Fecho as malas, me despeço da das casinhas de tijolinhos e o arco de Wembley pela janela. Digo “goodbye” aos porteiros, mas no sentido de “adeus” ao invés do “até logo” que ele significara até então. Olho para cada lajota da rua em que avanço, sabendo que não mais as verei. Desço as derradeiras escadas do tube, desembarco em Paddington, entrego meu Oyster card para alguém. “Ainda tem créditos, e eu não vou usá-los”, penso. No último Heathrow Express e tento memorizar a visão dos galpões e bosques até o aeroporto, para levar a lembrança comigo. Despacho minhas malas, olho para o cartão de embarque, não há a passagem de volta. Saboreio cada gole da Guinness, pois não tomarei mais esse néctar tão perto de onde ele foi produzido. Entro no avião, e o Português dos comissários me incomoda como se fossem as grades de uma jaula de onde jamais sairei. “Ainda é cedo”, penso, “ainda é cedo para voltar”. Mas agora já é tarde demais para querer ficar. O avião decola selando meu destino. O oceano vai apagando a Europa da minha vida.

Não estou ainda preparado para esse dia. Algum dia estarei, mas deixa ele no futuro do preterito enquanto isso. Sejá lá o que vim fazer aqui, ainda não terminei. Pedi perdão aos familiares. Contei com o apoio da (então futura) noiva, que se dispôs a me acompanhar na viagem louca que continua, e ainda não tem data para terminar. Vamos ficando por aqui. Até que faça sentido voltar. Algum dia, algum dia.

Marcelo Rondon

Marcelo Rondon em frente ao Big Ben

Quem esteve aqui no final de semana foi o Marcelo Rondon.

Pois é, um Marcelo vai embora, o outro Marcelo vem. Mas esse também já foi, portanto agora vivo numa Londres sem Marcelos.

Marcelo Rondon, cuja simplicidade de alma e tino para os negócios são de dar fliksk, me honrou aqui com sua companhia enquanto esperava uma visita de trabalho com um cliente bretão. Afinal, Gente coisa é outra fina, como diria o Turíbio Alencar.

O relógio marca exatamente 5 horas da noite. A temperatura podia ser contada com os dedos de uma das mãos. Perfeita ocasião para um turismo a pé. Caminhamos do Big Ben até a Tower Bridge pela charmosa margem sul do Tâmisa, e claro, nos abastecendo de cervejas pelo caminho.

A regra era não repetirmos nenhuma marca de cerveja. Tomamos 15 marcas de cerveja: Becks (Alemanha), IPA (Inglaterra), Tiger (Singapura), London Pride (Inglaterra), Kronenbourg (França), Young’s (Inglaterra), Budvar (República Checa), Sol (México), Guiness (Irlanda), Caffrey’s (Inglaterra), Carling (Inglaterra), Asahi (Japão), Asahi Black (Japão), San Miguel (Espanha), John Smith’s (Inglaterra).

As 15 cervejas de todos os recônditos do mundo foram degustadas em menos de 36 horas, com direito a Sunday Roast, Escalope Milanese no Tino’s e o inevitável calzone do Garfunkel’s.

De quebra ainda vimos um show de malabaristas em Covent Garden e andamos sob a gélida garoa londrina em volta da Harrod’s (que fecha as 6 da noite a 2 domingos do natal…)

Tomara que o Rondon bole uma operação bem complexa, que exija muitas negociações para ser estruturada, e cada uma das negociações me renda a boa companhia do valho amigo aqui nessa terra onde todo mundo está de passagem.