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Uma vez Paulista…

Palácio da Justiça, Páteo do Colégio

Palácio da Justiça, Páteo do Colégio

Estranhei a confusão no aeroporto, estranhei a estreita esteira onde as pessoas disputavam as bagagens. O free shop evitei, pois já tinha estranhado na última vez. Estranhei os caminhões na Dutra, a marginal com o rio cimentado, estranhei as avenidas largas e barulhentas, com seus estranhos prédios novos.

Estranhei, de tão deliciosa, a rabada que minha mãe preparou para me receber. Estranhei a felicidade dos meus amigos em saber que eu estava aqui, estranhei a disposição deles em vir me ver assim tão de repente. Todos eles. Foi estranho me sentir especial depois de tanto tempo.

O Fabão foi um dos que veio me ver

O Fabão foi um dos que veio me ver

Estranhei a pizza que chegou na nossa porta de noite, por ver que a conveniência não compromete o prazer. Estranhei as cervejas geladas, nessas latas pequenininhas que acabam rápido. Estranhei os debates acalorados sobre o Brasil, estranhei o quão tarde as pessoas deixam ficar por estarem gostando da conversa. Estranhei a falta da Denise.

Estranhei meu pai preferir a Avenida Brasil à Heitor Penteado para chegar na minha irmã. Estranhei a casa cheia de crianças. Estranhei o carinho do meu sobrinho, que acabara de passar 1/3 da vida dele sem me ver mas morria de saudades.

JC e Gus

JC e Gus

Estranhei as tomadas de dois pininhos cilíndricos, que não aceitavam meus aparelhos de longe. Estranhei não poder dirigir, pois, estranhamente, os motoristas irregulares estão sendo parados na rua. Fui até o metrô para ir à Santa Efigênia comprar adaptadores para usar meu computador e celular.

Metrô Brigadeiro

Metrô Brigadeiro

Estranhei o português que vazava das pessoas ao meu redor nas ruas e no metrô. Estranhei os nomes das estações. Estranhei ter estranhado ver as pessoas todas à direita nas escadas rolantes para ajudar os apressados. Estranhei quando meu cartão com chip foi aprovado para bancar meus gastos em reais.

Estranhei os apartamentos espaçosos onde meus amigos estão morando, e começando a popular com crianças que devem ter me estranhado. Estranhei a picanha, a calabreza e o queijo coalho que eles serviram na varanda. Estranhei seus planos, seus objetivos, suas conquistas.

Estou estranhando muito São Paulo. É estranho ser tão bem recebido por quem não te via há um ano. É estranho se sentir tão em casa num lugar que há muito não é sua casa. É estranho ver que tudo por aqui está tão diferente, mas tão igual. É estranho ver pessoas que conheci pequenas (em termos de idade ou de projeto de vida) terem crescido tanto junto com esse lugar. É estranho sentir ter participado disso tudo, mesmo sem ter tido.

Na verdade o que mais me estranhou foi o fato de que não estranhei nada. E comecei a estranhar a mim mesmo por isso. Estranhei como a minha vida foi para longe, mas ao mesmo tempo ela continua aqui, intacta. Tenho certeza que vou estranhar Covent Garden e St John’s Wood, e a minha casinha, e aquelas pessoas estranhas, falando aquela língua estranha, quando pousar em Heathrow depois dessa semana estranha.

SP e JC

SP e JC: the eternal bond

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Peço desculpas: as fotos desse artigo são de viagens anteriores de JC à sua terra natal. Fotos novas não puderam ainda ser garimpadas por limitações técnicas, e serão apresentadas aqui em momento oportuno.

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Chega de saudade

Em 2008 o Brasil comemora os 50 anos da Bossa Nova.

Cifratanga)

Joao Gilberto e Tom Jobim fazendo historia na praia (Fronte: Cifratanga)

E com razão: a Bossa Nova foi o mais importante movimento cultural do Brasil, projetando os nomes de Tom Jobim e João Gilberto para o primeiro time do jazz internacional, e despertando a curiosidade dos gringos para o que acontecia no Brasil. Musicalmente, a Bossa Nova abriu as portas do mundo para os brasileiros que viriam depois, como o Milton Nascimento, o Ivan Lins e o Jorge Benjor, que já chegaram a ser mais famosos no exterior do que no Brasil. Mas o significado da Bossa Nova na história do Brasil vai além da música: 1) ela reflete o estado de espírito de um país que passava por uma fase áurea; 2) talvez até por isso mesmo, ela poderia ter sido um sinal de alerta para o que estava por vir.

Explico.

1) Sobre a fase áurea: o final dos anos 50 foram o melhor momento vivido pelo povo Brasileiro (os primeiros anos de Plano Real rivalizam, mas acho que não chegam lá). O Presidente Juscelino passeava de fusca conversível festejando a chegada da indústria ao Brasil, e construía uma cidade futurista no meio do cerrado para ser a nova capital (alguma semelhança com Dubai?). Tudo o que era Brasileiro encantava o mundo – da Bossa Nova, que cativou Frank Sinatra e Stan Getz, ao futebol de Pelé, aquele menino de 17 anos que brilhou na Suécia e conquistou a primeira Copa do Mundo para o Brasil.

Patetada)

Rei Pelé comemorando a Copa de 58 (fonte: Patetada)

Imagine você sendo um brasileiro nesses tempos, acostumado a viver num país atrasado e isolado, e vendo esse mesmo país se lançar ao mundo e ao futuro com uma ousadia – e um sucesso – inéditos. Não tem como não expodir de orgulho e felicidade, e cantar as coisas boas da vida. Chega de saudade! O negócio é festejar o presente e esperar o bom futuro que se desenha. A Bossa Nova era uma música leve, alegre, suave, de bem com a vida. Era a expressão da felicidade e da esperança do Brasileiro do fim dos anos 50. Junto com a Bossa Nova devem ter surgido as expressões “Deus é Brasileiro” e “O Brasil é o país do futuro”.

Forum Outer Space)

Construção de Brasília (fonte: Forum Outer Space)

2) Sobre o sinal de alerta: Talvez a Bossa Nova pudesse ter avisado o Brasileiro que nada é tão simples assim, e que depois de uma fase tão boa SEMPRE vem uma fase ruim. Quem acreditou no amor, no sorriso e na flor sonhou, sonhou. O final dos anos 50 foi não mais que um “surto” de otimismo, liberdade e modernidade no Brasil, e passou logo depois. Os projetos megalomaníacos de JK custaram ao Brasil a estabilidade econômica e política, entregando o país à ditadura e à inflação das quais levamos, respectivamente, 21 e 35 anos para nos recuperar*, tendo a desigualdade social e a violência como sequelas que perduram até hoje. O Brasil voltou a se fechar ao mundo, a indústria nacional parou no tempo, e até a nossa seleção parou de ganhar as copas.

Falando em frases de efeito, uma que deveria ter surgido durante a Bossa Nova é “Está tudo tão bem que se melhorar estraga”. Porque é verdade. O momento em que mais temos que nos preocupar com o futuro é exatamente aquele em que as coisas parecem estar bem demais.

A boa notícia é que a Bossa Nova ficou. E também a nossa música se consolidou como uma das melhores e mais respeitadas do mundo. Nosso futebol também: não ganhamos todas mas somos sempre favoritos, e ainda produzimos os melhores jogadores do mundo.

A outra boa notícia é que, passada a má fase, o Brasil está indo bem hoje, graças à ação razoavelmente responsável de governos seguidos. Claro que temos um longo trajeto ainda a percorrer, mas o Brasil parece caminhar rumo ao futuro devagar e sempre, de um modo mais sustentável. Somos junto com a China, Índia e Rússia a grande aposta do mundo para o futuro. Até já viramos Investment Grade! Isso avisa ao Brasileiro que nada é tão impossível assim, e que depois de uma fase ruim SEMPRE vem uma fase boa. E chega de saudade.

Skyscraper City)

O Brasil é Investment Grade... (fonte: Skyscraper City)

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

* Claro que houveram outros motivos para a inflação e a ditadura, mas isso fica para outra discussão.

JC, Denise, Nê, André

De volta ao Brasil. De volta ao calor, à boa comida, aos bons amigos, ao volante. A foto mostra JC e Denise Neves num restaurante argentino com André Luigi e Vanessa na última terça.

Engraçado como essa história de mudar de país vai se mostrando um processo longo e gradual. Aos poucos, as 11 horas no avião já não parecem tão longas, o teclado com acentos vai ficando difícil de usar, e atravessar a rua se torna uma tarefa mais difícil já que não é mais tão óbvio adivinhar de onde os carros virão.

Mas o mais interessante é se sentir distanciando do stress do dia-a-dia do brasileiro. Saio na rua e vejo as pessoas com pressa no trânsito, gritando em seus celulares, usando seus paletós, entregando mercadorias. Vai ficando difícil a gente entender como as pessoas podem viver preocupadas num lugar onde você só vem de férias.

Ouço as pessoas me contando seus problemas e aos poucos me vejo menos capaz de ajuda-las. Queria poder fazer mais pelos meus amigos. Queria me comprometer mais, participar mais ativamente das transformações pelas quais eles estão passando. Não posso. Logo estarei longe de novo e tudo o que poderei fazer é dar palavras de conforto.

Isso também meio que reflete a questão de que a minha proporia vida está numa calmaria. Estou esperando uma fase da minha vida terminar para começar a próxima. Nada de revolucionário me aconteceu nos últimos 5 meses (não digo nada de importante, mas as coisas importantes são desdobramentos de decisões que tomei no ano passado). Será que isso me torna menos sensível aos problemas do dia-a-dia de quem eu valorizo tanto no Brasil?

Isso é engraçado pois achava que era o contrário, que quando você está com problemas tende a focar neles e ter menos energia disponível para os outros. Mas talvez quando as coisas estão bem você tem um nível de energia menor mesmo e pouco consegue devotar a problemas tanto seus como dos outros. Aquela velha história de “se você precisa pedir algo a alguém, escolha quem está mais ocupado”.

Bom, o fato é que estou aqui perto dos meus pais, meus irmãos, minha noiva, meu sobrinho, e de um teclado com acentos! Acho que é isso que importa no final das contas…

Acabou a temporada brasileira.

Tedio Aereo II

Devo dizer, a mais intensa das temporadas brasileiras desde que vim me aventurar pelas terras britânicas. Intensa em acontecimentos, intensa em sentimentos.

Acontecimentos incluem o natal no Rio, o muro 2007, o noivado, visitas à Isabella (filhinha da Dani Araújo), a histórica sessão com Fabão, almoços no Demarchi com Edu e Ro, no Folha de Uva com Maggie e Cris Prado, no Bárbaro com Fernando Moraes e Ale, Thiago Barbosa e Jessica e Felipe Aquilino. O sensacional happy hour no Original (que recebeu uns 30 de nós e nos cobrou a bagatela de R$ 1.034), o show da Cowbell no Athilio Music, os jantares italianos na Maria, o jantar familiar na Simone na véspera da minha partida. Comi e bebi feito m alucinado nessas 3,5 semanas.

Sentimentos incluem o fliksk dos casais amigos que tem suas casas próprias… Edu e Roberta, Marise e Gustavo, Dani e Guilherme (que acabaram de ter a filhinha), Paris e Fran (que descobriram que terao um rebento). Tem tambem o fliksk dos grandes mestres Milton Nascimento e da turma da Bossa Nova, cujas histórias eu pude conhecer mais a fundo com o tempo livre em solo brasileiro. Tem ainda toda a nostalgia de me ver jovem nas fitas antigas que meu pai passou para DVD. Um JC cabeludo, de 18, 19, 20 anos, começando a vida, antes de começar a sentir toda a felicidade e trsiteza que a ele se apresentariam.

E no avião, voltando, tentei encaixar todas essas sensações na minha cabeça. Após 32 anos já se viveu muito… Tanta gente entrou e saiu da minha vida, tantos projetos que foram iniciados, terminados, abandonados. Tanta coisa boa e tanta coisa ruim me aconteceu, pessoas a quem eu fiz muito feliz e a quem eu magoei profundamente… Pessoas que me fizeram feliz e que me magoaram.

E agora estou aqui de volta, novamente isolado disso tudo no espaço e no tempo. Londres. 2007. Novas pessoas, novos projetos, nova casa. E a esperança de que os próximos 10 anos tenham menos reviravoltas que os últimos 10, que eu possa me frmar em m lugar, com uma pessoa, com um grupo de amigos, com uma vida que continue sem maiores sobressaltos. Que daqui a 10 anos eu ainda esteja ao lado de todos a quem eu quero bem hoje, para termos o prazer de relembrarmos tudo o que foi vivido, numa conversa ao invés de um vídeo caseiro.

E, como o fotolog ainda vai estar ativo, postarei o evento aqui em primeira mão em janeiro de 2017!!

FunHouse

! O ultimo evento social da temporada brasileira foi o FunHouse, na Rua Bela Cintra. Um sobradinho laranja que voce passa reto se nao souber exatamente o que tem la dentro.

La dentro tinha o Eduardo Terranova. Tinhamos combinado de postar a mesma foto.

Dentro do FunHouse, fiquei sabendo da existencia dos Emos: Um grupo de jovens que, iguais aos goticos mas competamente diferentes, se vestem de preto e usam cabelos e chapeus estilizados para se identificar com sua tribo.

Estava la tambem o Ska, amigo do Terra que nunca perdeu no War. E que, alias, nunca perdeu em nada. So perde quando e de proposito, quando joga buraco com a sogra e segura uma mao de 1500 pontos so para nao chatear a velhinha. Eh o Almirante Isokoru Yamamoto do underground da Bela Vista. O Ska nao gosta de Emos.

Obviamente que o desafiei para uma partida de War online qualquer dia desses.

Tinha Guiness e Sol. Tocou L7, e outras bandas que nao conhecia (talvez sejam bandas Emo). E assim foi.

Eduardo Terranova. Aquele mesmo, dos tempos da Saint Germain.
Aquele mesmo, que brigou com o porteiro do nosso ex-predio quando foi nos visitar e foi informado que nao moravamos mais la. Aquele mesmo, que tirou fotos secretas da Denise Neves certo dia (que ficaram belissimas). Aquele mesmo que ja girou o planeta Terra jogando Magic. Aquele mesmo.

Sukiyaki

Sukiaki + JC

O pessoal acha que comida japonesa se resume a peixes crus, algas e molho de soja frios.

São tolos.

O sukiyaki é uma verdadeira celebração dos sentidos. Carne, vegetais, cogumelos, tofu e harussame (espécie de macarrão transparente) juntos, na chapa, com um molho à base de sake e shoyu.

A degustação do prato é um ritual. A moça primeiro traz o pequeno fogareiro típico e o coloca na nossa frente. Depois traz um prato com todos os ingredientes crus e os vai calmamente depositando sobre a chapa já quente. Ao final irriga aquela mistura com o molho.

Depois de uma pequena espera, na qual se observa o cozimento dos alimentos e se ouve o borbulhar da água fervente, chega a hora de finalmente ingerir a maravilhosa mistura. Seleciona-se os ingredientes que se quer comer e os coloca na tigela (tradicionalmente já contendo um ovo cru batido, mas tem gente que não gosta disso). O sabor, a temperatura e a textura são inconfundíveis. Entre uma mordida e outra, o arroz japonês “limpa” a boca e renova o paladar.

Um sukiyaki no Sushi Yassu (R. Manoel da Nóbrega) sai por R$ 49,00 para 2 pessoas e alimenta bem. Em Londres, no Nambu Tei, o mesmo prato custa £ 22.00 por pessoa (algo como R$ 170,00 para 2 pessoas). Por isso resolvo acumular toda minha fome de sukiyaki na Bretanha para vir saciá-la aqui em solo tupiniquim.

A Denise Neves não gostou muito, mas ela vai aprender. O Sukiyaki é como música clássica e Guiness: requer certa boa vontade de início, mas depois sua apreciação é um verdadeiro deleite.

Fica aí a sugestão para seu próximo jantar a dois. Sukiyaki. Tem em tudo que é restaurante japonês (se não tiver, desconfie), e eu garanto que você irá impressionar sua companheira.

Bom apetite!

Notas:
1 – Caro Reimão, taí o título que você tanto queria!
2 – Foto © Denise Neves, Maio 2006.

Eu to voltando!

JC beijando a bandeira do Brasil

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto, eu to voltando.
Poe meia duzia de brahma pra gelar, muda a roupa de cama, eu to voltando.
Leva o chinelo pra sala de jantar, que e la mesmo que a mala eu vou largar! Quero te abraçar. pode se perfumar porque eu to voltando!!

Da uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor que eu to voltando.
Pega uma praia, aproveita, tá calor, vai pegando uma cor que eu to voltando.
Faz um cabelo bonito pra eu notar que eu so quero mesmo e despentear! Quero te agarrar. Pode se preparar porque eu to voltando!!

Poe pra tocar na vitrola aquele som, estreia uma camisola, eu to voltando.
Da folga pra empregada, manda a criancada pra casa da avo, que eu to voltando.
Diz que eu so volto amanha se alguem chamar, telefone não deixa nem tocar! Quero lá lá lá iá. Lá lá lá lá lá iá, porque eu to voltando!!

Letra da cancao “To voltando”, de Mauricio Tapajos e Paulo Cesar Pinheiro. Simone, “Pedacos”, 1979.

Nao quis alterar o texto original, mas tenho aqui algumas ressalvas:
1 – “Poe meia duzia de brahma pra gelar”, eu incluiria a expressao “caixas de” depois da 4ª palavra.
2 – Que diabos é um defumador??
3 – Nao faco questao alguma de ver o povo estreando camisola.
3 – Folga pra empregada eu tambem cortaria. Mas criancas na casa da vo eu deixaria. Estou indo para a casa da vo do Gus e quero ele la!!
5 – O “lá lá iá” da última frase é uma inaceitável demonstração de desleixo do compositor. O proprio Chico Buarque fez isso em “Apesar de Voce”, 1970. Tapajos e Pinheiro seguiram a onda. Tsc, tsc. Tanta coisa boa do Chico pra imitar.
6 – Eu to voltando!!