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Rádio Cabeça

A cena se deu há umas duas semanas atrás. Denise se arrumava para o trabalho e JC ainda semi-acordado na cama. De repente ela começa a rir e me fala:

DN: “Você está balançando seu pé”
JC: “É que está tocando uma música na rádio da minha cabeça”
DN: “Qual música?”
JC: “’Doralice’, aquela do Dorival Caymmi que o João Gilberto gravou em 1958”

“Doralice, eu bem que lhe disse
Amar é tolice, é bobagem, ilusão
Eu prefiro viver tão sozinho
Ao som do lamento do meu violão”

Denise gargalhou e saiu de casa cantarolando Doralice.

JC escutando à Rádio Cabeça em Ladispoli

JC escutando à Rádio Cabeça em Ladispoli

Acho que todos nós temos aquela rádio que fica tocando na nossa cabeça. Ela entra no ar sempre que a nossa mente fica desocupada. A parada de sucessos daquele dia ainda incluiu “Aconteceu” da Marisa Monte, “Rooster” do Alice in Chains, “Off the Hook”, aquela do CSS que toca no FIFA 08, e infelizmente a “Dança do Quadrado” do pessoal do Kibe Loco.

A programação musical da Rário Cabeça JC é tão eclética quanto meu repertório. Vira e mexe me pego cantando na minha cabeça músicas que nem lembrava que conhecia. Tem outras de minha própria autoria que surgem e somem da minha cabeça num instante, feito bolinhas de sabão. Mesmo as músicas que eu mais odeio fazem questão de aparecer lá, algumas vezes entre as mais pedidas.

Mensagens filosóficas passam na Rádio Cabeça em Caculé, BA

Mensagens filosóficas passam na Rádio Cabeça em Caculé, BA

Mas a Rádio Cabeça não toca apenas música. Tem programas de debates acalorados, onde personagens fictícios discordam frontalmente e apresentam seus argumentos com veemência, para me deixar mais confuso do que eu era antes. Tem programas de histórias e anedotas que eu lembro e me fazem rir sozinho. E tem também a Sessão Nostalgia, em que os momentos e as pessoas da vida de JC passam em reprise numa espécie de “Video Show” mental. Tem até intervalo comercial na minha Rádio Cabeça…

Eu fico curioso para saber o que passa na Rádio Cabeça das outras pessoas. Nesses tempos modernos o pessoal tende a deixá-la desligada, girando o dial na direção de seus iPods e YouTubes e blogs como o desse humilde relator. Mas ela, insistente, invade a mente de todo mundo quando menos se espera, na hora de dormir, na hora do banho, no elevador, na garagem, preenchendo o silêncio que vez por outra nos envolve.

Deixo aqui o desafio para os meus leitores, de listarem as músicas ou histórias ou debates que estão tocando hoje nas suas Rádios Cabeça. Tenho certeza que vamos nos divertir com os comentários.

Rádio Cabeça. A Rádio de um ouvinte só. Su-su-su-cesso. Aproveitem.

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Chega de saudade

Em 2008 o Brasil comemora os 50 anos da Bossa Nova.

Cifratanga)

Joao Gilberto e Tom Jobim fazendo historia na praia (Fronte: Cifratanga)

E com razão: a Bossa Nova foi o mais importante movimento cultural do Brasil, projetando os nomes de Tom Jobim e João Gilberto para o primeiro time do jazz internacional, e despertando a curiosidade dos gringos para o que acontecia no Brasil. Musicalmente, a Bossa Nova abriu as portas do mundo para os brasileiros que viriam depois, como o Milton Nascimento, o Ivan Lins e o Jorge Benjor, que já chegaram a ser mais famosos no exterior do que no Brasil. Mas o significado da Bossa Nova na história do Brasil vai além da música: 1) ela reflete o estado de espírito de um país que passava por uma fase áurea; 2) talvez até por isso mesmo, ela poderia ter sido um sinal de alerta para o que estava por vir.

Explico.

1) Sobre a fase áurea: o final dos anos 50 foram o melhor momento vivido pelo povo Brasileiro (os primeiros anos de Plano Real rivalizam, mas acho que não chegam lá). O Presidente Juscelino passeava de fusca conversível festejando a chegada da indústria ao Brasil, e construía uma cidade futurista no meio do cerrado para ser a nova capital (alguma semelhança com Dubai?). Tudo o que era Brasileiro encantava o mundo – da Bossa Nova, que cativou Frank Sinatra e Stan Getz, ao futebol de Pelé, aquele menino de 17 anos que brilhou na Suécia e conquistou a primeira Copa do Mundo para o Brasil.

Patetada)

Rei Pelé comemorando a Copa de 58 (fonte: Patetada)

Imagine você sendo um brasileiro nesses tempos, acostumado a viver num país atrasado e isolado, e vendo esse mesmo país se lançar ao mundo e ao futuro com uma ousadia – e um sucesso – inéditos. Não tem como não expodir de orgulho e felicidade, e cantar as coisas boas da vida. Chega de saudade! O negócio é festejar o presente e esperar o bom futuro que se desenha. A Bossa Nova era uma música leve, alegre, suave, de bem com a vida. Era a expressão da felicidade e da esperança do Brasileiro do fim dos anos 50. Junto com a Bossa Nova devem ter surgido as expressões “Deus é Brasileiro” e “O Brasil é o país do futuro”.

Forum Outer Space)

Construção de Brasília (fonte: Forum Outer Space)

2) Sobre o sinal de alerta: Talvez a Bossa Nova pudesse ter avisado o Brasileiro que nada é tão simples assim, e que depois de uma fase tão boa SEMPRE vem uma fase ruim. Quem acreditou no amor, no sorriso e na flor sonhou, sonhou. O final dos anos 50 foi não mais que um “surto” de otimismo, liberdade e modernidade no Brasil, e passou logo depois. Os projetos megalomaníacos de JK custaram ao Brasil a estabilidade econômica e política, entregando o país à ditadura e à inflação das quais levamos, respectivamente, 21 e 35 anos para nos recuperar*, tendo a desigualdade social e a violência como sequelas que perduram até hoje. O Brasil voltou a se fechar ao mundo, a indústria nacional parou no tempo, e até a nossa seleção parou de ganhar as copas.

Falando em frases de efeito, uma que deveria ter surgido durante a Bossa Nova é “Está tudo tão bem que se melhorar estraga”. Porque é verdade. O momento em que mais temos que nos preocupar com o futuro é exatamente aquele em que as coisas parecem estar bem demais.

A boa notícia é que a Bossa Nova ficou. E também a nossa música se consolidou como uma das melhores e mais respeitadas do mundo. Nosso futebol também: não ganhamos todas mas somos sempre favoritos, e ainda produzimos os melhores jogadores do mundo.

A outra boa notícia é que, passada a má fase, o Brasil está indo bem hoje, graças à ação razoavelmente responsável de governos seguidos. Claro que temos um longo trajeto ainda a percorrer, mas o Brasil parece caminhar rumo ao futuro devagar e sempre, de um modo mais sustentável. Somos junto com a China, Índia e Rússia a grande aposta do mundo para o futuro. Até já viramos Investment Grade! Isso avisa ao Brasileiro que nada é tão impossível assim, e que depois de uma fase ruim SEMPRE vem uma fase boa. E chega de saudade.

Skyscraper City)

O Brasil é Investment Grade... (fonte: Skyscraper City)

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

* Claro que houveram outros motivos para a inflação e a ditadura, mas isso fica para outra discussão.

A Contracapa

Como bom beatlemaníaco eu tenho a sorte de morar a uma quadra dos estúdios de Abbey Road, onde eles gravaram a maior parte de sua obra e em frente ao qual foi tirada a foto de uma das capas mais históricas do rock n’ roll. Gente do mundo inteiro vem ver o estúdio, escrever na mureta e tirar a foto como se fossem os beatles atravessando a rua.

Abaixo, uma pequena galeria dos nossos amigos que já posaram na histórica passarela:

Original com os Beatles Aloy Pessoal de Forest Gate Sandra, Maria, Bruno
Danca do Siri Cotta e Fred Heimbeck Cotta e Maestro Iscagliusi Cotta @ Abbey Road

Bom, mas isso não é novidade para a maioria dos leitores deste blog. O interessante é que nesse final de semana consegui recriar a contra-capa do famoso álbum.

A contracapa mostra o nome “Abbey Road” com letrinhas de ladrilho, como era comum aqui na zona norte de Londres antigamente. Cada letra é um tijolinho, e os nomes das ruas são soletrados como se fosse um linotipo. A letra “N” que aparece depois do nome da rua é o início do CEP (NW8, no caso), que foi espertamente coberto por um transeunte.

O problema é que esses ladrilhos com o nome da rua praticamente não existem mais. Foram trocados por placas brancas, provavelmente mais baratas, de mais fácil leitura e manutenção. Achei que nunca ia conseguir ver um dos “Abbey Road” originais escritos com louça como aparece no disco.

Mas é aí que Londres fica interessante. O novo nunca substitui o velho por completo, e se você olhar atento sempre encontra resquícios da herança histórica da cidade. Outra sorte é que a Abbey Road é uma rua bem longa. Pois bem, fomos encontrar na outra extremidade da Rua da Abadia uma plaquinha de ladrilho intacta, e com o CEP e tudo.

Boa notícia para os beatlemaníacos de plantão nas suas próximas visitas ao mundo encantado de JC!!

Genesis

Palco

Tem vezes que a gente nao posta porque nao esta acontecendo nada… Tem vezes que a gente nao posta porque estao acontecendo coisas demais.

Por exemplo: “Turn it On Again”, Show do Genesis, 08.07.07, em Twickenham. Aquele pelo qual eu e Felipao esperamos 15 anos.

Tenho que ir… Abracos!

Los Hermanos - Vanessa da Mata

De um passado glorioso, a música brasileira hoje corre perigo de vida. De um lado, é invadida por filhos de artistas, sem talento suficiente, que provam jamais serem capazes de repetir os feitos de seus pais. Do outro, fica cada vez mais rala para poder falar a uma população cada vez menos culta. Sertanejos, pagodeiros, forrozeiros e axezeiros de araque* disputam entre si quem consegue baixar mais o nível do que já foi a melhor música do mundo.

Pois quem poderá herdar o pesado legado de Tim, Tom, Milton, Caetano, Chico, Djavan, Gil, Benjor, Elis? O show tem que continuar, afinal. Ainda temos a Marisa, graças a Deus, mas ela não pode continuar solitária na luta para manter o bom nome da nossa música.

Os dois nomes mais promissores (que eu conheço) para encarar a tarefa me deram uma notícia boa e uma ruim essa semana.

Los Hermanos anunciaram um “recesso por período indeterminado”, eufemizando o fim da banda. Abandonam a luta bem quando não temos quase ninguém mais a quem recorrer. O que passa pela cabeça de Camelo e Amarante eu não sei: talvez queiram parar por cima, ou estejam numa estiagem criativa, ou seja uma aposentadoria precoce para gastar o que ganharam. Estão no direito deles. Mas me senti traído, privado de tantas novas experimentações dos Hermanos que eu não poderei ouvir.

Sorte que a Vanessa da Mata lançou o “Sim”, seu terceiro e melhor álbum. A menina-prodígio de Goiás abusa da voz infantil e da mente fresca para dar um futuro para a música do Brasil. Vanessa é o último soldado sobrevivente na luta e parece saber disso: agarra a cambaleante música brasileira e lhe aponta a direção com pérolas como “Fugiu com a novela”, “Baú” e “Pirraça”. “Quando um homem tem uma mangueira no quintal” é uma das melhores canções da nossa música nos anos 2000.

Querida Vanessa, parabéns pela bela obra e obrigado por continuar lutando. Você é um alento para ouvidos sedentos de boa música. Só não me vá desistir também, por favor….

*Em tempo: eu até gosto de sertanejo, forró, pagode e axé, desde que feitos com qualidade. Mas vocês hão de convir que esses gêneros foram infestados por impostores sem criatividade alguma e de péssimo gosto…

JC, o baterista!

A bateria é provavelmente o instrumento musical que mais desperta interesse das pessoas.

Primeiro, porque não é um “objeto”, não é algo que você segura e maneja. Não. É um verdadeiro sistema. É um instrumento maior que o músico. O músico “veste” a bateria, se senta na posição de comando como se estivesse manobrando uma carreta.

Segundo, porque parece fácil. Para o leigo, a bateria nada mais é que um monte de tambores e pratos, e duas varinhas para você bater nelas. Algum tipo de som você consegue tirar dela. Outros instrumentos, você olha para eles e nem consegue imaginar como tirar uma nota. Você até os assopra ou os aperta, mas o resultado é ou o silêncio ou um ruído mais insuportável que o canto do lúcifer.

Por isso mesmo, todo incauto quando vê uma bateria, quer se sentar lá e brincar com as baquetas.

Como foi o caso do nosso amigo JC nessa foto – e eu tenho a vantagem de ter um irmão baterista e portanto sei como esses caras “parecem” quando estão tocando muito. Vai dizer que com uma pose dessa, JC não iria iludir qualquer um sobre suas habilidades baterísticas?

Mas ora, ora, convenhamos…. Nem num mundo encantado JC conseguiria tocar mais de um compasso numa bateria…

X&Y

X&Y

Capa de “X&Y”, Coldplay, 2005.

O Coldplay está no Brasil. Um pouco da música “nacional” daqui indo entreter meus irmãos brazucas. Inspirado na empolgação do meu irmão com o evento, cheguei em casa, desempoerei o disco e coloquei-o para tocar. Realmente é uma obra prima, quase ao nível do seu álbum de estréia “Parachutes”, de 2000.

Mas não é isso o que traz essa capa para as páginas desse humilde fotolog, sim o fato de que ouvir “X&Y” foi aquele ritual em que a gente formalmente transfere uma lembrança do nosso presente ao nosso passado, como se gravando um dado no HD para liberar memória RAM. Até aí nada de mais, a gente faz isso toda hora. Mas essa foi a primeira vez que percebo que estou levando para os meus arquivos momentos que passei aqui na Bretanha.

6 de Junho de 2005, dia de lançamento do esperado álbum. JC, com apenas uma semana de Reino Unido, aproveita uma pausa no trabalho do Banco da América e vai nos subterrâneos da Casa do Canário, achar na HMV o recém-lançado álbum. “X&Y” bateu o recorde de primeiro dia de vendas no Reino Unido, e eu contribuí para isso (CAAARA!!). A loja estava fantasiada de Coldplay, com banners, posters e pilhas do festejado disco. “Talk”, a obra-prima então desconhecida para mim, tocava ao fundo. Paguei as £17 que os caras pediam e voltei ao trabalho.

O disco do Coldplay foi a minha primeira aquisição na Inglaterra.

Eu era tão recente nesse país que nem casa tinha, estava instalado no sofá que Bruno Cirello gentilmente me cedera. Cheguei na casa e estavam todos lá, me apressei para colocar o disco para tocar. Na segunda música o faltmate Italiano tirou o disco, alegando ser um som muito “parado”. Que herege. Adiou o meu momento histórico. Em protesto, deitei no sofá e retomei a leitura de “Humano, demasiado humano” (o Nietzche que o Rogério me emprestou) para dormir.

Na semana seguinte fui ocupar em Kilburn o quarto do peruano Armando Risi (outro “student-to-be da LBS que resolveu viajar pela Europa antes do inicio do curso). Enfim consegui ouvir o disco com calma. Me arrepiei. Me indagava se o X&Y não era ainda melhor que o Parachutes. Chegava do trabalho todo dia e escutava o X&Y enquanto tentava driblar a solidão falando com Denise e meus irmãos no messenger.

E assim, “Square One”, “Fix you”, “Talk” e “Low” foram preenchendo meus dias de Kilburn. Me tiraram de casa em 2 de julho, ao vê-las pela televisão num Live 8 que lotou o Hyde Park. Me alegraram em 6 de julho de 2005 quando Londres foi escolhida para sediar as olimpíadas. Me protegeram do desamparo e do medo em 7 de julho quando o metrô de Londres foi bombardeado minutos depois de eu passar por ele. Era o meu companheiro, meu confidente. Junto com o “Cien Años de Soledad”, que Armando deixara no quarto e eu lia antes de dormir).