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Londres

Salto em Picadilly Circus

Salto em Picadilly Circus

Uma pessoa se define por algumas decisões chave que tomou na vida. Uma profissão, um casamento, uma mudança para outra cidade, uma promoção no trabalho. Em cada uma delas vamos desviando nossa vida para aquilo que desejamos que ela seja – ou o que a realidade nos impõe – e passamos a ser as pessoas que somos hoje. Até que mudemos de rota de novo com outra decisão.

No meu caso, quiseram os caminhos da vida que eu viesse passar um tempo aqui em Londres. E lá se foram mais de 3 anos. Quando se tem que tomar uma nova decisão que pode mudar tudo, escrever ajuda a enxergar tudo aquilo que temos e podemos deixar para trás em nome de outra vida que podemos viver no futuro.

Pois então vem aqui um tributo à nossa vidinha em Londres.

Arrumando o apezinho

Arrumando o apezinho

Tem o apartamentinho na Floresta de São João, pequenino mas adorável. Fica pertinho do centro, a uma quadra dos estúdios de Abbey Road onde músicos que mudaram o mundo gravavam suas genialidades.

Dentro do ap tem o sofá, cuja capa nós trocamos na Ikea. Tem a geladeirinha de Stellas, que realiza o sonho de tomar cervejas sempre geladas sem levantar do sofá. Tem a TV onde assistimos a alta qualidade das produções britânicas, e aprendemos a adorar os programas de imóveis, culinária, e reality shows que o pessoal daqui também adora. Tem o XBox, com o Rainbow Six Vegas, o GTA 4, o Fifa, o Halo, para desestressar.

Minha geladeirinha querida

Minha geladeirinha querida

Daí, no final de semana, saímos eu e Denise para uma gostosa caminhada de 1.5km até o Sainsbury’s. Fazer supermercado é um prazer, escolhemos as coisas que gostamos, comparamos preços, experimentamos coisas novas, e damos risadas. Cada compra nos dá pontos no programa de fidelidade do Sainsbury’s. Colocamos tudo no “carrinho da vovó” e na sacolona da Ikea para não usar as sacolas plásticas que agridem o planeta. Pegamos o 187 de volta para casa e guardamos as compras.

Aprendemos a cozinhar, e nos divertimos fazendo almoços e jantares diferentes. Tem o “bacon & egg” da Denise, tem o meu risoto de frutos do mar, teve a moqueca que fizemos para o Eric Feddal (o gaulês), tem os omeletes, tem o Sunday roast. Plantamos manjericão e coentro em casa. Compramos apetrechos novos para a cozinha.

Hamburgão com guaraná

Hamburgão com guaraná

Sunday Roast em casa

Sunday Roast em casa

Tem a nossa pequena DVDteca que aumenta quase a cada semana. A Denise volta do trabalho e compra uns DVDzinhos novos para a gente assistir. Séries de TV americanas e britânicas, filmes daqui, filmes de outros lugares. Devoramos tudo no nosso sofazinho, saboreando nossos quitutes e tomando as cervejinhas da geladeirinha de Stellas.

Tem a nossa turminha, a Débora, o Fabian, a Juliana, o Stuart, o Mark Stanko, o Mark Huckstep, o Roger e a Cláudia lá em Yorkshire. Tem o pessoal que vem visitar – neste ano vieram Xaxá, Fatinha e Felipão, veio o Thiago Reimão, veio o Victor Adura e o Luigi, a Marise e o Gustavo, o George, A Julinha e a Renata, o Felipe Aquilino, o Pinhal, a Maria Helena. Temos o maior prazer em receber – a casa é pequena mas o coração é grande.

JC+D com Mark e Lisa Huckstep

Com Mark e Lisa Huckstep

De, JC, Juliana, Debora, Claudia, Roger

Com Juliana, Debora, Claudia, Roger

Baker Street Station

Baker Street Station

Tem o metrô de Londres, que a gente adora criticar mas que leva a gente pra todos os cantos. Tem o 139, que a gente pega aqui na esquina e passa em quase todos os lugares turísticos. Tem a bicicletinha que a Denise acabou de comprar, e que nós montamos sozinhos aqui em casa. Tem os vôos baratos para tudo quanto é canto da Europa. E bendito seja o Heathrow Express, que leva ao aeroporto em 15 minutos.

Tem a caminhada do Southbank, de Waterloo até a Tower Bridge, com o Founder’s Arms e o Honiman at Hay’s para paradas merecidas no caminho. Tem Covent Garden (Covent Góóden para os locais), com os artistas de rua, os Scottish Pasties e os pubzinhos onde eu me encontro com a turma da Denise depois do trabalho. Tem a Edgware Road, onde vamos comer um kebab sempre que dá vontade. Tem a Finchley Road e a Tottenham Court Road, onde compramos tudo o que precisamos (o que não vende nessas ruas não existe). Tem também o Guanabara, para a gente matar as saudades da terrinha, com música brasileira ao vivo e Brahmas no balcão.

Edgware Road

Edgware Road

Thames South Bank

Thames South Bank

Londres tem brasileiros de todas as origens. Tem indianos, japoneses, chineses, árabes, judeus, franceses, mexicanos, escandinavos, moçambicanos, australianos, italianos, russos, malaios, poloneses, Trinidad&Tobaguenses. Ah, de vez em quando tem uns ingleses também.

Em Londres as pessoas se preocupam com o meio ambiente (como se as atitudes de algumas pessaos nessa ilhazinha fossem salvar o planeta), com a saúde, com a justiça. Em Londres as regras são claras e quase todo mundo as respeita. Em Londres você não precisa reconhecer firma em cartório, e compra a passagem do trem mesmo quando ninguém vai checar.

London Eye + Big Ben

London Eye + Big Ben

E assim é a nossa vidinha. Eu encontro a Denise em qualquer ponto da cidade, e caminhamos durante horas. No caminho paramos para tirar fotos e comprar uma cerveja nas lojinhas de indiano. Chegamos em casa cansados de andar, botamos um camembert para assar e colocamos um DVD novo que compramos, para assistir e dormir, sem antes um de nós dois dizer:

“É boa a nossa vidinha aqui em Londres”.

Foi mal. Ficou meio longo o post. Mas eu queria deixar o registro.

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Dubai

Salto nas areias do Golfo Persico, Burj Al-Arab ao fundo

Salto nas areias do Golfo Persico, Burj Al-Arab ao fundo

Da janela do apartmento dos nossos amigos no andar 52 da Millenium Tower, onde nos hospedamos, avistávamos o esplendor futurista da Sheikh Zayed Road cortando Dubai de Leste a Oeste a 1km da praia. O prédio, um dos 10 maiores edifícios residenciais do planeta, tem janelas que não abrem para otimizar o funcionamento do ar condicionado.

Millenium Tower @ Sheikh Zayed Road, Dubai

Millenium Tower @ Sheikh Zayed Road, Dubai

Dubai é uma loucura. Um sonho megalomaníaco que desafia a imaginação de alguém nascido ainda no terceiro quarto do século XX. A metrópole, que nada mais era que um vilarejo com um punhado de beduínos mercadores 15 anos atrás, e que a passo de bala se consolida como a capital do Oriente Médio, se constrói diante dos nossos olhos.

Torres gigantescas – com apartamentos, escritórios, hotéis e shopping centers – pipocam aqui e acolá num piscar de olhos. Ilhas artificiais se erguem do chão oferecendo priais particulares para os mais abastados. Idéias malucas, como o hotel debaixo d’água, o prédio de 170 andares, a torre cujos andares giram independentes, a pista de esqui na neve de verdade no meio do deserto mais quente do mundo, se tornam realidade e viram coisa corriqueira no dia-a-dia do cidadão. Nada parece impossível a este lugar, graças a um objetivo claro, à tolerância religiosa, à tecnologia de ponta, à mão-de-obra barata e aos infinitos dólares do petróleo.

Burj Dubai e seus 160+ andares

Burj Dubai e seus 160+ andares

Cidade em construção

Cidade em construção

Neve no deserto

Neve no deserto

As obras seguem, as gruas se amontoam, mas a locomoção ainda é difícil. As avenidas se alargaram, mas as alças de acesso que as farão se conectar ainda não ficaram prontas. O metrô, de superfície, se levanta ao lado da Sheikh Zayed e já no final desse ano vai levar passageiros de um extremo a outro da cidade em trens sem maquinista, com vagões exclusivos para as mulheres e (outros) para os obreiros indianos. Até lá, o carro é indispensável mesmo para se atravessar a rua.

Além da falta de transporte público, o calor úmido de 45 graus é o outro fator que proíbe as pessoas de ganhar as ruas. Em Dubai você sente uns 10 choques térmicos por dia, cada vez que abre a porta do carro ou de um prédio para o ar escaldante e pegajoso da rua. TODOS os dias faz sol, e imagino que quem nunca saiu daqui poucas vezes tenha visto uma nuvem.

Trecho da orla, sol todo dia

Trecho da orla, sol todo dia

Dubai é exatamente o avesso de Londres. Todos os aspectos da vida aqui são o contrário daqueles na capital da velha bretanha. Garoa intermitente x calor infernal. Longas caminhadas x dependência de carro. Tradição x modernindade audaciosa. Flats apertados x casarões vastos. Regras claras x “o céu é o limite”. Glórias passadas x promessas futuras. Realidade x fantasia.

Dubai tem uma sociedade com castas bem definidas. No topo, os “emiratis”, os habitantes locais donos da riqueza que está tornando realidade esse devaneio fantástico. É fácil indentificá-los pelo orgulho com que desfilam eu seus aventais brancos e turbantes amarrados à cabeça por um anel preto. Na base, hordas de indianos, paquistaneses e filipinos que, fugindo da miséria em seus países de origem, vireram carregar os tijolos e dirigir os táxis para levantar a cidade. Espremidos no meio, os expatriados europeus que entregam sua inteligência aos sheikhs para fazer crescer os prédios e diversificar os negócios, em troca da vida confortável num país sem impostos.

"Emirati" comprando no McDonald's

"Emirati" no McDonald's

Operarios na hora do recreio

Operarios na hora do recreio

Dubai é hoje o que foi Nova Iorque no início do século passado. Um lugar cuja ousadia e riqueza futilizam os superlativos e mostram a tendência para as grandes metrópoles do futuro. Para quem, como eu, vem de outro sonho feliz de cidade, fica a sensação de se estar num parque temático para adultos ricos. Mas talvez eu fosse achar a mesma coisa se tivesse assistido a construção do Empire State Building a 80 anos atrás.

Será que vale a comparação? O futuro dirá? Ou será Dubai já o futuro gritando para nós até que aprendamos a ouvir? Que aceitemos a nova ordem das coisas? Que percebamos que a tal “era da informação” pode já ter passado ou que talvez nem tenha ocorrido? A pujança dessa capital inventada pode ser talvez a grande negação do valor estratégico da “informação”, dada a sua rápida banalização. As economias que capitnearam a tecnologia digital estão em crise, vendo toda a sua riqueza se escorrer pelos dedos para parar nos bolsos dos mesmos sheikhs de sempre, para a construção de seus delírios de concreto. Dubai nos ensina que, novamente, quem está no topo da pirâmide é quem controla os recursos naturais.

Manjericão

Comer bem a preços justos em Londres é um desafio. A cadeia de valor que leva os alimentos do produtor até o prato é pesada. Chefs renomados, aluguéis estratosféricos e garçons-artistas tornam proibitivo o costume de comer em restaurantes. A comida “semi-pronta” do supermercado também traz o custo de processamento e overheads do supermercado.

Não tem jeito: tem que aprender a cozinhar. Quer uma lasanha à bolonhesa? Nada de ir em trattorias, nem apelar para a lasanha de microondas do supermercado: compre a massa e os tomates, moa a carne, pesquise como preparar uma lasanha, e voilà! Só assim se come bem gastando-se pouco (depois de algumas tentativas, pelo menos).

Quanto mais “crus” e menos processados os ingredientes, maior parte do valor é você que adiciona ao prato e tira dos intermediários. Sendo assim, o ultimate saving é você cultivar sua própria comida.

Confesso que quando compramos as sementes de manjericão e o “Miracle-Gro” (uma terrinha vitaminada), eu estava bem cético. Afinal, tirando a experiência de escola de plantar um feijão no algodão molhado, eu nunca tinha conseguido fazer uma semente crescer na terra (e olha que já tentei…)

Manjeriquinhos em 5 de abril de 2008

Mas não é que a coisa brotou mesmo?? Em menos de uma semana já começaram a aparecer os primeiros manjeriquinhos aventureiros saindo da terra à procura do sol. Logo era uma multidão de manjeriquinhos disputando o pequeno espaço do vaso.

Algumas semanas depois, nossos manjericos já tinham múltiplas folhas e começavam a exalar aquele aroma gostoso. Hoje, feriadão aqui na Bretanha, fui dar uma olhada no manjericão e fiquei orgulhoso. A planta já está vistosa e perfuma a cozinha. Em breve acho que já vamos poder fazer o nosso primeiro molho de macarrão com os nossos manjericões!!

Manjericao em 26 de maio de 2008A empolgação é tanta que este sábado já compramos sementes de coentro e colocamos num outro vaso. Também temos umas sementes de maçã plantadas (essas fizem que é mais difícil “pegar”, mas estamos esperançosos). Um amigo nosso planta morangos e tomates, estamos tentados. Afinal, ainda temos um monte de miracle-gro sobrando… Qualquer dia desses vamos ter uma verdadeira mini-horta aqui no nosso mini-apartmento.

O próximo passo é ter o nosso próprio quintal e criar nossas galinhas, porcos e carneiros!! A independência total do sistema de distribuição que arrocha o consumidor. A subsistência completa, no coração de uma das capitais do mundo desenvolvido!

Utopia?? Fantasia?? Insanidade??

Claro que sim….

A Contracapa

Como bom beatlemaníaco eu tenho a sorte de morar a uma quadra dos estúdios de Abbey Road, onde eles gravaram a maior parte de sua obra e em frente ao qual foi tirada a foto de uma das capas mais históricas do rock n’ roll. Gente do mundo inteiro vem ver o estúdio, escrever na mureta e tirar a foto como se fossem os beatles atravessando a rua.

Abaixo, uma pequena galeria dos nossos amigos que já posaram na histórica passarela:

Original com os Beatles Aloy Pessoal de Forest Gate Sandra, Maria, Bruno
Danca do Siri Cotta e Fred Heimbeck Cotta e Maestro Iscagliusi Cotta @ Abbey Road

Bom, mas isso não é novidade para a maioria dos leitores deste blog. O interessante é que nesse final de semana consegui recriar a contra-capa do famoso álbum.

A contracapa mostra o nome “Abbey Road” com letrinhas de ladrilho, como era comum aqui na zona norte de Londres antigamente. Cada letra é um tijolinho, e os nomes das ruas são soletrados como se fosse um linotipo. A letra “N” que aparece depois do nome da rua é o início do CEP (NW8, no caso), que foi espertamente coberto por um transeunte.

O problema é que esses ladrilhos com o nome da rua praticamente não existem mais. Foram trocados por placas brancas, provavelmente mais baratas, de mais fácil leitura e manutenção. Achei que nunca ia conseguir ver um dos “Abbey Road” originais escritos com louça como aparece no disco.

Mas é aí que Londres fica interessante. O novo nunca substitui o velho por completo, e se você olhar atento sempre encontra resquícios da herança histórica da cidade. Outra sorte é que a Abbey Road é uma rua bem longa. Pois bem, fomos encontrar na outra extremidade da Rua da Abadia uma plaquinha de ladrilho intacta, e com o CEP e tudo.

Boa notícia para os beatlemaníacos de plantão nas suas próximas visitas ao mundo encantado de JC!!

Vista do quarto

Pyramids by night

Faltou a vista e faltou a foto ano passado.

Melhores fotos estao fotos por vir, aguardem.

JC

Acabou o MBA

Foto © Denise Neves, 06.07.07

LBS Band