Arquivo da categoria: Filosofia

Saudades de mim

Nesses últimos dias eu andei revolvendo músicas, momentos, amigos, lugares, cheiros, sensações do passado de uma forma que há muito não fazia. Acho que estou com saudades de mim.

Aeroportos da vida

Aeroportos da vida

A vida vai carregando a gente para lá e para cá, mudando nossos hábitos, distorcendo nossas mentes, enraizando conceitos, nos deixando mais conscientes mas mais cautelosos. Vamos aos poucos trocando de opiniões, atualizando objetivos, mudando de lugar, conhecendo gente. A transformação é quase sempre linear, contínua, imperceptível no dia-a-dia. Vestibulares, formaturas, promoções, casamentos, são eventos que apenas simbolizam os movimentos lentos da nossa vida.

Poker no Paraiso

Poker no Paraiso

De repente você se pega lembrando de coisas que fazia e dizia, de pessoas que eram importantes, de idéias e músicas que achava geniais, de dilemas que lhe tiravam o sono, e se surpreende de ser você o personagem daquelas histórias. A nostalgia seria quase uma fantasia da nossa cabeça, não fossem as fotos nos ábuns empoeirados e os discos esquecidos na prateleira, únicas provas concretas de que o passado realmente aconteceu.

Fernando Moraes

Fernando Moraes

Pois às vezes me dá saudade daquele cara. Ou melhor, daqueles caras. O JC de 98, de 2001 de 2003, de 2005, o JC do Brasil, do roteiro gastronômico e noites de pôquer com o Rogério, o Páris e a Maggie, das sessões musicais com o Felipe e a turma da ESPM, dos jantares no New’s com o Edu depois da GV, dos churrascos na Riviera e na casa do Rondon, dos papos com a Cris Prado, do hino do União São Simão, da Banda Treze, na derrota do Brasil para a Itália, dos natais no Rio, da subida da Imigrantes com o Thiago nos domingos à noite, dos shows da Cowbell no Corleonne, das idas à Cantareira com o Toddynho e o João Paulo.

Claudiomiro e Thiago Reimao

Claudiomiro e Thiago Reimao

Por que eu tenho saudades de mim mesmo? Teria eu sido mais feliz naqueles tempos? Certamente que não. Mas esses JCs me trouxeram para onde eu estou hoje. Todas aquelas histórias sobrevivem apenas na minha memória – sim, as pessoas que estavam comigo também são outras hoje – e são de fato a única coisa que a gente leva dessa vida.

Karaoke - Maggie

Karaoke - Maggie

Talvez para mim seja pior, pois eu não tenho mais acesso a essa gente toda. Um vôo de 11 horas me separa da oportunidade de sentar com eles de novo, naquelas mesmas cadeiras de outrora, para relembrar esses momentos. A impossibilidade do reencontro exacerba as saudades. As saudades do meu país. As saudades dos meus pais. A saudade de mim.

Em algum ponto do futuro eu também terei saudades desse JC de 2008, aquele de Londres, começando uma vida com a Denise, que assistia Grand Designs, que viajou para Dubai e que escreveu posts como este.

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A saudade é um dos temas mais recorrentes destas páginas, desde os tempos de fotolog lá em 2005. Já escrevi sobre o que realmente é saudade, e tipos diferentes de saudade, a saudade do presente, o reverso da saudade.

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O atleta olímpico e a abelhinha operária

Começaram os jogos de Pequim. 11 mil atletas disputando 38 modalidades para ganhar um total de 906 medalhas. Os jogos simbolizam a busca do homem pela superação de seus limites. E no processo alguns seres “notáveis” podem aparecer, como foi o caso do Michael Phelps na piscina ontem.

E nessas horas me pergunto até que ponto é legítimo o sonho olímpico. Tirando esses atletas brilhantes que fazem história, será que vale a pena uma pessoa dedicar sua vida a treinar uma modalidade que ninguém conhece, ser testado num momento efêmero, perder por um centésimo de segundo e ser para sempre esquecido?

Michael Phelps, depois de bater o recorde mundial por mais de 1s

Michael Phelps, depois de bater o recorde mundial por mais de 1s

Para que apareça um Michael Phelps numa olimpíada, alguns milhões de atletas têm que ficar no caminho. A maioria não se qualifica sequer para ir aos jogos. Dos que têm a honra de chegar a disputar em Pequim (11 mil atletas), menos de 1% vai realmente fazer alguma diferença na história do esporte. O que existe então para toda essa multidão de esportistas derrotados?

Fica a lição da vontade, quase instintiva, do ser humano de ser o “escolhido”. A humanidade precisa dos seres iluminados para avançar. E a realidade é essa para todos nós. Para que exista um Albert Einstein, um Paul McCartney, um Dalai Lama, um Van Gogh, um Bill Gates, um Mao Tse-Tung, um Pelé, é preciso que milhares, milhões de outras pessoas tentem sê-las e falhem. Os perdedores criam as comunidades que vão cultivar os vencedores, e criam o clima de competição que os motivará a dar o passo além.

Estará ali o próximo brasileiro histórico?

Estará ali o próximo brasileiro histórico?

Sendo assim, perguntar se vale a pena um atleta treinar a vida inteira para perder nas olimpíadas é o mesmo que perguntar se vale a pena eu, você e todos que você conhece estarmos vivos. Porque, assim como os 10.998 atletas que serão esquecidos em Pequim, todos nós as somos tentativas frustradas de Deus de criar um ser capaz de alterar a história da raça humana. As olimpíadas valem a pena assim como a vida vale a pena.

Pois eu já me conformei que não vou mudar o mundo. Nada do que eu faça pode ser tão bom ou tão ruim a ponto de alterar o curso da história. Assim para mim, junto com todos os outros 99.9999999% das pessoas, abelhinhas operárias, pequenos heróis do dia-a-dia, o negócio é relaxar e ser feliz. Ser importante para as pessoas que me são caras, viver em paz comigo mesmo, me esforçar para fazer o melhor que posso e dar o exemplo, assim ajudando a construir uma sociedade que – oxalá – será propícia para trazer o próximo ser iluminado ao mundo. Nós brasileiros somos melhores nisso do que achamos que somos. Nossos ídolos notáveis são uma criação de todos nós – daí a torcida que ficamos num evento como a olimpíada. E, aos trancos e barrancos, devagarzinho estamos chegando lá.

Rádio Cabeça

A cena se deu há umas duas semanas atrás. Denise se arrumava para o trabalho e JC ainda semi-acordado na cama. De repente ela começa a rir e me fala:

DN: “Você está balançando seu pé”
JC: “É que está tocando uma música na rádio da minha cabeça”
DN: “Qual música?”
JC: “’Doralice’, aquela do Dorival Caymmi que o João Gilberto gravou em 1958”

“Doralice, eu bem que lhe disse
Amar é tolice, é bobagem, ilusão
Eu prefiro viver tão sozinho
Ao som do lamento do meu violão”

Denise gargalhou e saiu de casa cantarolando Doralice.

JC escutando à Rádio Cabeça em Ladispoli

JC escutando à Rádio Cabeça em Ladispoli

Acho que todos nós temos aquela rádio que fica tocando na nossa cabeça. Ela entra no ar sempre que a nossa mente fica desocupada. A parada de sucessos daquele dia ainda incluiu “Aconteceu” da Marisa Monte, “Rooster” do Alice in Chains, “Off the Hook”, aquela do CSS que toca no FIFA 08, e infelizmente a “Dança do Quadrado” do pessoal do Kibe Loco.

A programação musical da Rário Cabeça JC é tão eclética quanto meu repertório. Vira e mexe me pego cantando na minha cabeça músicas que nem lembrava que conhecia. Tem outras de minha própria autoria que surgem e somem da minha cabeça num instante, feito bolinhas de sabão. Mesmo as músicas que eu mais odeio fazem questão de aparecer lá, algumas vezes entre as mais pedidas.

Mensagens filosóficas passam na Rádio Cabeça em Caculé, BA

Mensagens filosóficas passam na Rádio Cabeça em Caculé, BA

Mas a Rádio Cabeça não toca apenas música. Tem programas de debates acalorados, onde personagens fictícios discordam frontalmente e apresentam seus argumentos com veemência, para me deixar mais confuso do que eu era antes. Tem programas de histórias e anedotas que eu lembro e me fazem rir sozinho. E tem também a Sessão Nostalgia, em que os momentos e as pessoas da vida de JC passam em reprise numa espécie de “Video Show” mental. Tem até intervalo comercial na minha Rádio Cabeça…

Eu fico curioso para saber o que passa na Rádio Cabeça das outras pessoas. Nesses tempos modernos o pessoal tende a deixá-la desligada, girando o dial na direção de seus iPods e YouTubes e blogs como o desse humilde relator. Mas ela, insistente, invade a mente de todo mundo quando menos se espera, na hora de dormir, na hora do banho, no elevador, na garagem, preenchendo o silêncio que vez por outra nos envolve.

Deixo aqui o desafio para os meus leitores, de listarem as músicas ou histórias ou debates que estão tocando hoje nas suas Rádios Cabeça. Tenho certeza que vamos nos divertir com os comentários.

Rádio Cabeça. A Rádio de um ouvinte só. Su-su-su-cesso. Aproveitem.

Rogério Santos – parte 2

Perdido entre os meus posts antigos estava lá uma homenagem a Rogério Santos, em Abril de 2006. E as coisas que disse lá sobre ele continuam valendo, mas em se trantando de Rogério, em 2 anos tanta coisa acontece que achei uma boa idéia “atualizar” a homenagem.

Denise Neves)

Rogério Santos discursando na sala do Paraíso (Foto: Denise Neves)

Nos últimos 2 anos o Rogério se transformou de bancário em filósofo. Trocou de emprego, entrou na faculdade de filosofia, virou um dos melhores alunos da classe, tem andado com todos aqueles loucos, destrinchando textos complexos dos maiores pensadores da humanidade. E começou a escrever um fotolog pra lá de interessante, onde fala de servidão voluntária, dilemas morais de Nietzsche, letras do Cazuza, religião, a resposta de Kant a Hume sobre a relação de causalidade, filmes europeus, o fim da filosofia, essas coisas. Confesso que muitas vezes não entendo direito o que ele quer dizer com seus textos filosóficos, mas a sensação de estar em contato com os pensamentos que trafegam por essa mente iluminada traz um conforto muito grande.

O Rogério veio me visitar aqui em 2006 mas não em 2007 – preferiu ir ao Nepal para chegar mais perto de sabe lá que respostas esteja procurando para sabe lá que perguntas. Mas tudo bem. Sempre que tenho a chance de ir ao Brasil ele é uma das primeiras e uma das últimas pessoas que vejo. E, daqui da Bretanha, mantemos um contato quase que diário por e-mail, pelo telefoninho VoIP ou pelas partidas de xadrez.

Rogério e JC

Rogério e JC

Escrevendo isso percebo que minha amizade com o Rogério está para fazer 9 anos. Mas já o conheço há uns vinte – ele era cloega de classe da minha irmã em 1987 e dançou a valsa na festa de 15 anos dela. Se soubesse que iríamos ficar tão próximos teria conversado mais com ele naquele dia – mas ele não iria me dar bola mesmo, já que eu era nada mais que um “pirralho” da 7a serie para ele naqueles tempos.

Antes de fechar, quero agradecer ao Rogério pela ajuda fundamental que ele está me dando nesse período difícil e decisivo pelo qual estou terminando de passar.

Abraços para você! Parabens pela sua conquista! E mostra pra eles!

AAhhhh – só um PS aqui. Na homenagem inicial conto a história do aniversário da namorada do Michael em Buenos Aires, em que eu chamei erroneamente a menina de Cecília graças a uma dica maliciosa do Rogério. Pois veja você: em Dubai, o nosso anfitrião André é colega de infância do Michael, e me perguntou “Você tem falado com ele? Sabe se ele já se casou com a Ciça?”. E eu penso: “Ciça? Cecília? Será que eu estava certo naquela ocasião? Ou sera que o Rogério ali, em Buenos Aires no ano 2000, já estava usando seus dotes mediúnicos para antecipar o nome da futura cara-metade do Michael?”

Cidade X Cidade: Dubai e o Cairo (as nuances do mundo árabe)

A Barbrinha é nossa nova amiga virtual. Está morando e descobrindo o Egito, e contando suas aventuras (algumas delas engraçadíssimas) no seu blog. A Denise a conheceu através do blog e eu entrei de carona. Depois descobrimos que ela conhece a Ju Picanha e o Neto, que tabalharam com o marido dela. Mundo pequeno.

Enfim. A Bárbara, em sua busca por desvendar os mistérios dessa cultura árabe na qual se inseriu, viu o meu post sobre Dubai e me pediu para fazer uma comparação entre Dubai e o Egito. Vamos a ela.

Burj-al-arab, 5 anos de idade

Dubai: Burj-al-arab, 5 anos de idade

Pirâmides de Gizé, 5.000 anos

Cairo: Pirâmides, 5.000 anos

Semelhanças. Dubai e o Cairo são cidades-chave no que se entende por “mundo árabe”. As duas cidades ficam no Oriente Médio, têm o árabe como língua oficial, tem o clima quente do deserto e a cultura definida pelos hábitos islâmicos. E pára por aí.

De resto, Dubai e o Cairo não poderiam ser mais diferentes, e pudera. O Egito tem 6 mil anos de história para contar. Dubai tem uns 20 e olhe lá. O Egito foi o berço da civilização humana, deu ao mundo a escrita, a primeira religião organizada, a primeira sociedade com castas, e a primeira maravilha do mundo. As pirâmides de Gizé, que até 1889 ainda eram a maior estrutura já erguida pelo homem, podem ser vistas da lua e ninguém sabe ao certo como foram construídas. Depois disso, o Egito entrou em declínio e viveu sob o domínio dos Persas, Romanos, Bizantinos, Árabes, Turcos Otomanos, Franceses, Britânicos, recuperando sua independência apenas depois da II Guerra Mundial.

O Cairo, visto do 16o andar

O Cairo, visto do 16o andar

Dubai não tem nada dessa riqueza histórica. Os Emirados Árabes de hoje eram um protetorado britânico esquecido até os anos 70, e ganharam a independência quando o petróleo começou a ter um papel mais relevante no comércio internacional. Era um deserto, e só. Os petrodólares que entraram na região nos últimos 35 anos é que estão levantando este país de fantasia e megalomania e atraindo gente de todas as culturas e classes sociais. Os Emirados Árabes e a China de hoje são provavelmente as maiores metamorfoses geopolíticas vistas na história. Nunca um país tinha conseguido se alçar do nada à condição de potência tão rapidamente. A estrutura mais alta feita pelo homem não fica mais no Egito – fica nos Emirados Árabes.

Dubai Marina

Dubai Marina

A enorme diferença entre as histórias dos dois lugares ajuda o visitante a entender as diferenças quando os visita. O Cairo, maior cidade do Oriente Médio, deve ser a menos árabe das cidades do “mundo árabe”. Sem dúvida a cultura árabe é a mais forte que existe por lá, mas o Egito não pode negar as heranças culturais recebidas de todos os seus dominadores. É talvez o único país onde o Islã convive com outras religiões – 15% da população é cristã ortodoxa grega. Os preceitos muçulmanos são respeitados, mas por força dos costumes e não por força de lei, como nos países vizinhos. A diversidade cultural do Cairo forçou a convivência de pessoas de culturas diversas durante milênios, e produziu um clima de tolerância não vista em outras sociedades árabes.

Em Dubai existe diversidade cultural e religiosa também, mas por outros motivos. Ao contrário do Cairo, em Dubai quase todo mundo é estrangeiro. As diferentes culturas que se vê lá são aquelas trazidas pelos imigrantes (os europeus da classe média e os indianos da classe baixa), mas não há troca. Os diferentes grupos sociais são isolados entre si e se ignoram solenemente em Dubai.

Olha os caras de turbante a direita da Denise

Dubai: Olha os caras de turbante a direita da Denise!

Olha a moça "assanhadinha" na garupa da vespa!

Cairo: Olha a moça "assanhadinha" na garupa da vespa!

Em suma: o Cairo é uma cidade de verdade, pois está lá a milhares de anos sofrendo a ação dos movimentos da história, com seus habitantes interagindo entre si para criar uma identidade cultural única e peculiar. Dubai é (ainda) um projeto de cidade, sem identidade cultural definida. É claro que com o tempo os grupos de pessoas que vivem em Dubai vão naturalmente se integrar e se misturar criando enfim uma sociedade “típica” emirate. Mas isso ainda vai levar uns bons 50 anos para acontecer.

Conhecer Dubai e o Cairo é ótimo para o turista ocidental que imagina que a palavra “árabe” tem um significado só. Achar que o egípcio é igual ao saudita, o iraniano, o libanês ou o emirate seria o mesmo que imaginar que os ingleses são iguais aos alemães e aos italianos, ou achar que os paulistas são como os baianos e os gaúchos. Vistos de longe, só se enxerga as semelhanças entre esses grupos, mas quando se aproxima as diferenças vão aparecendo.

Pra finalizar: mulher de burca, tem bastante. Nos dois lugares. Mas não são todas. Nos dois lugares. E o importante mesmo é que, ao longo da visita, aprendemos uns com os outros e selamos a paz que deveria permear as relações entre os povos. “Allah” é apenas a tradução árabe da palavra “Deus”, assim como “shokran” significa “obrigado”. E assim a vida vai seguindo.

 Confraternização cultural

Confraternização cultural

Barbrinha querida, espero que isso ajude um pouco na sua descoberta. Beijos!

Londres

Salto em Picadilly Circus

Salto em Picadilly Circus

Uma pessoa se define por algumas decisões chave que tomou na vida. Uma profissão, um casamento, uma mudança para outra cidade, uma promoção no trabalho. Em cada uma delas vamos desviando nossa vida para aquilo que desejamos que ela seja – ou o que a realidade nos impõe – e passamos a ser as pessoas que somos hoje. Até que mudemos de rota de novo com outra decisão.

No meu caso, quiseram os caminhos da vida que eu viesse passar um tempo aqui em Londres. E lá se foram mais de 3 anos. Quando se tem que tomar uma nova decisão que pode mudar tudo, escrever ajuda a enxergar tudo aquilo que temos e podemos deixar para trás em nome de outra vida que podemos viver no futuro.

Pois então vem aqui um tributo à nossa vidinha em Londres.

Arrumando o apezinho

Arrumando o apezinho

Tem o apartamentinho na Floresta de São João, pequenino mas adorável. Fica pertinho do centro, a uma quadra dos estúdios de Abbey Road onde músicos que mudaram o mundo gravavam suas genialidades.

Dentro do ap tem o sofá, cuja capa nós trocamos na Ikea. Tem a geladeirinha de Stellas, que realiza o sonho de tomar cervejas sempre geladas sem levantar do sofá. Tem a TV onde assistimos a alta qualidade das produções britânicas, e aprendemos a adorar os programas de imóveis, culinária, e reality shows que o pessoal daqui também adora. Tem o XBox, com o Rainbow Six Vegas, o GTA 4, o Fifa, o Halo, para desestressar.

Minha geladeirinha querida

Minha geladeirinha querida

Daí, no final de semana, saímos eu e Denise para uma gostosa caminhada de 1.5km até o Sainsbury’s. Fazer supermercado é um prazer, escolhemos as coisas que gostamos, comparamos preços, experimentamos coisas novas, e damos risadas. Cada compra nos dá pontos no programa de fidelidade do Sainsbury’s. Colocamos tudo no “carrinho da vovó” e na sacolona da Ikea para não usar as sacolas plásticas que agridem o planeta. Pegamos o 187 de volta para casa e guardamos as compras.

Aprendemos a cozinhar, e nos divertimos fazendo almoços e jantares diferentes. Tem o “bacon & egg” da Denise, tem o meu risoto de frutos do mar, teve a moqueca que fizemos para o Eric Feddal (o gaulês), tem os omeletes, tem o Sunday roast. Plantamos manjericão e coentro em casa. Compramos apetrechos novos para a cozinha.

Hamburgão com guaraná

Hamburgão com guaraná

Sunday Roast em casa

Sunday Roast em casa

Tem a nossa pequena DVDteca que aumenta quase a cada semana. A Denise volta do trabalho e compra uns DVDzinhos novos para a gente assistir. Séries de TV americanas e britânicas, filmes daqui, filmes de outros lugares. Devoramos tudo no nosso sofazinho, saboreando nossos quitutes e tomando as cervejinhas da geladeirinha de Stellas.

Tem a nossa turminha, a Débora, o Fabian, a Juliana, o Stuart, o Mark Stanko, o Mark Huckstep, o Roger e a Cláudia lá em Yorkshire. Tem o pessoal que vem visitar – neste ano vieram Xaxá, Fatinha e Felipão, veio o Thiago Reimão, veio o Victor Adura e o Luigi, a Marise e o Gustavo, o George, A Julinha e a Renata, o Felipe Aquilino, o Pinhal, a Maria Helena. Temos o maior prazer em receber – a casa é pequena mas o coração é grande.

JC+D com Mark e Lisa Huckstep

Com Mark e Lisa Huckstep

De, JC, Juliana, Debora, Claudia, Roger

Com Juliana, Debora, Claudia, Roger

Baker Street Station

Baker Street Station

Tem o metrô de Londres, que a gente adora criticar mas que leva a gente pra todos os cantos. Tem o 139, que a gente pega aqui na esquina e passa em quase todos os lugares turísticos. Tem a bicicletinha que a Denise acabou de comprar, e que nós montamos sozinhos aqui em casa. Tem os vôos baratos para tudo quanto é canto da Europa. E bendito seja o Heathrow Express, que leva ao aeroporto em 15 minutos.

Tem a caminhada do Southbank, de Waterloo até a Tower Bridge, com o Founder’s Arms e o Honiman at Hay’s para paradas merecidas no caminho. Tem Covent Garden (Covent Góóden para os locais), com os artistas de rua, os Scottish Pasties e os pubzinhos onde eu me encontro com a turma da Denise depois do trabalho. Tem a Edgware Road, onde vamos comer um kebab sempre que dá vontade. Tem a Finchley Road e a Tottenham Court Road, onde compramos tudo o que precisamos (o que não vende nessas ruas não existe). Tem também o Guanabara, para a gente matar as saudades da terrinha, com música brasileira ao vivo e Brahmas no balcão.

Edgware Road

Edgware Road

Thames South Bank

Thames South Bank

Londres tem brasileiros de todas as origens. Tem indianos, japoneses, chineses, árabes, judeus, franceses, mexicanos, escandinavos, moçambicanos, australianos, italianos, russos, malaios, poloneses, Trinidad&Tobaguenses. Ah, de vez em quando tem uns ingleses também.

Em Londres as pessoas se preocupam com o meio ambiente (como se as atitudes de algumas pessaos nessa ilhazinha fossem salvar o planeta), com a saúde, com a justiça. Em Londres as regras são claras e quase todo mundo as respeita. Em Londres você não precisa reconhecer firma em cartório, e compra a passagem do trem mesmo quando ninguém vai checar.

London Eye + Big Ben

London Eye + Big Ben

E assim é a nossa vidinha. Eu encontro a Denise em qualquer ponto da cidade, e caminhamos durante horas. No caminho paramos para tirar fotos e comprar uma cerveja nas lojinhas de indiano. Chegamos em casa cansados de andar, botamos um camembert para assar e colocamos um DVD novo que compramos, para assistir e dormir, sem antes um de nós dois dizer:

“É boa a nossa vidinha aqui em Londres”.

Foi mal. Ficou meio longo o post. Mas eu queria deixar o registro.

O preço de um sonho

BBC Extras 2

“BBC Extras” é a segunda bola dentro do Ricky Gervais – um dos grandes nomes da comédia britânica. Provavelmente mais conhecido pela série “The Office” (pois é, o seriado americano é uma adaptação), Gervais faz um humor incômodo: a graça está em ver seus personagens serem humilhados de forma constangedora.

Em linhas básicas, a trama de “BBC Extras” é a de um ator mediano que vai fazendo pontas aqui e ali sonhando alcançar o estrelato. No final da primeira temporada seu sonho se realiza, e ele ganha o papel principal em um seriado da BBC! Final feliz para o nosso protagonista? Claro que não. Na 2ª temporada ele se vê pressionado pela emissora a fazer uma comédia ridícula e repetir uma frase imbecil, mas que agrada o público ignorante. Ok, ele é reconhecido na rua e dá autógrafos, ele é indicado para o Bafta (a versão bretã do “Troféu Imprensa”). Mas seu enlatado vira motivo de chacota no meio artístico e ele se odeia por estar fazendo esse papelão.

Visto de um ângulo mais profundo, “BBC Extras” na verdade mostra a armadilha que está à espreita de todos aqueles que perseguem um sonho com absoluta determinação.

Muitos de nós temos aquele objetivo de vida, e devotamos toda a nossa energia para realizá-lo. Passamos a viver pelo nosso sonho. Só a realização do nosso sonho – nada mais – poderá nos trazer a glória, a felicidade, o sucesso.

E assim colocamos o sonho acima de tudo. Rompemos com tudo aquilo que percebemos ser um obstáculo ou um entrave. Negligenciamos o que não nos ajuda a conquistar o nosso sonho. Vamos aos pouco mudando: estamos nos “configurando” para ser a pessoa que seremos no sonho? Ou estamos nos “desfigurando” deixando de lado quem éramos na verdade?

Quem tem um sonho precisa pensar bastante sobre isso.

Você é maior que o seu sonho.

Até porque, os sonhos quando se realizam nunca são do jeito que sonhávamos.