A Barbrinha é nossa nova amiga virtual. Está morando e descobrindo o Egito, e contando suas aventuras (algumas delas engraçadíssimas) no seu blog. A Denise a conheceu através do blog e eu entrei de carona. Depois descobrimos que ela conhece a Ju Picanha e o Neto, que tabalharam com o marido dela. Mundo pequeno.
Enfim. A Bárbara, em sua busca por desvendar os mistérios dessa cultura árabe na qual se inseriu, viu o meu post sobre Dubai e me pediu para fazer uma comparação entre Dubai e o Egito. Vamos a ela.

Dubai: Burj-al-arab, 5 anos de idade

Cairo: Pirâmides, 5.000 anos
Semelhanças. Dubai e o Cairo são cidades-chave no que se entende por “mundo árabe”. As duas cidades ficam no Oriente Médio, têm o árabe como língua oficial, tem o clima quente do deserto e a cultura definida pelos hábitos islâmicos. E pára por aí.
De resto, Dubai e o Cairo não poderiam ser mais diferentes, e pudera. O Egito tem 6 mil anos de história para contar. Dubai tem uns 20 e olhe lá. O Egito foi o berço da civilização humana, deu ao mundo a escrita, a primeira religião organizada, a primeira sociedade com castas, e a primeira maravilha do mundo. As pirâmides de Gizé, que até 1889 ainda eram a maior estrutura já erguida pelo homem, podem ser vistas da lua e ninguém sabe ao certo como foram construídas. Depois disso, o Egito entrou em declínio e viveu sob o domínio dos Persas, Romanos, Bizantinos, Árabes, Turcos Otomanos, Franceses, Britânicos, recuperando sua independência apenas depois da II Guerra Mundial.

O Cairo, visto do 16o andar
Dubai não tem nada dessa riqueza histórica. Os Emirados Árabes de hoje eram um protetorado britânico esquecido até os anos 70, e ganharam a independência quando o petróleo começou a ter um papel mais relevante no comércio internacional. Era um deserto, e só. Os petrodólares que entraram na região nos últimos 35 anos é que estão levantando este país de fantasia e megalomania e atraindo gente de todas as culturas e classes sociais. Os Emirados Árabes e a China de hoje são provavelmente as maiores metamorfoses geopolíticas vistas na história. Nunca um país tinha conseguido se alçar do nada à condição de potência tão rapidamente. A estrutura mais alta feita pelo homem não fica mais no Egito – fica nos Emirados Árabes.

Dubai Marina
A enorme diferença entre as histórias dos dois lugares ajuda o visitante a entender as diferenças quando os visita. O Cairo, maior cidade do Oriente Médio, deve ser a menos árabe das cidades do “mundo árabe”. Sem dúvida a cultura árabe é a mais forte que existe por lá, mas o Egito não pode negar as heranças culturais recebidas de todos os seus dominadores. É talvez o único país onde o Islã convive com outras religiões – 15% da população é cristã ortodoxa grega. Os preceitos muçulmanos são respeitados, mas por força dos costumes e não por força de lei, como nos países vizinhos. A diversidade cultural do Cairo forçou a convivência de pessoas de culturas diversas durante milênios, e produziu um clima de tolerância não vista em outras sociedades árabes.
Em Dubai existe diversidade cultural e religiosa também, mas por outros motivos. Ao contrário do Cairo, em Dubai quase todo mundo é estrangeiro. As diferentes culturas que se vê lá são aquelas trazidas pelos imigrantes (os europeus da classe média e os indianos da classe baixa), mas não há troca. Os diferentes grupos sociais são isolados entre si e se ignoram solenemente em Dubai.

Dubai: Olha os caras de turbante a direita da Denise!

Cairo: Olha a moça "assanhadinha" na garupa da vespa!
Em suma: o Cairo é uma cidade de verdade, pois está lá a milhares de anos sofrendo a ação dos movimentos da história, com seus habitantes interagindo entre si para criar uma identidade cultural única e peculiar. Dubai é (ainda) um projeto de cidade, sem identidade cultural definida. É claro que com o tempo os grupos de pessoas que vivem em Dubai vão naturalmente se integrar e se misturar criando enfim uma sociedade “típica” emirate. Mas isso ainda vai levar uns bons 50 anos para acontecer.
Conhecer Dubai e o Cairo é ótimo para o turista ocidental que imagina que a palavra “árabe” tem um significado só. Achar que o egípcio é igual ao saudita, o iraniano, o libanês ou o emirate seria o mesmo que imaginar que os ingleses são iguais aos alemães e aos italianos, ou achar que os paulistas são como os baianos e os gaúchos. Vistos de longe, só se enxerga as semelhanças entre esses grupos, mas quando se aproxima as diferenças vão aparecendo.
Pra finalizar: mulher de burca, tem bastante. Nos dois lugares. Mas não são todas. Nos dois lugares. E o importante mesmo é que, ao longo da visita, aprendemos uns com os outros e selamos a paz que deveria permear as relações entre os povos. “Allah” é apenas a tradução árabe da palavra “Deus”, assim como “shokran” significa “obrigado”. E assim a vida vai seguindo.

Confraternização cultural
Barbrinha querida, espero que isso ajude um pouco na sua descoberta. Beijos!