O mundo encantado de JC

Fábio Andrade e João Claudio, 23 de Dezembro de 2006, gravação do Samba Contrito

Fevereiro 26, 2007 · Deixe um comentário

Contritando...

Interessante observar como grande parte da beleza da arte nasce da dor, da solidão, da perda, do desespero. Não que o Samba Contrito seja o melhor exemplo da beleza da arte, mas não deixa de ser um pequeno exemplo de como a dor nos capacita a darmos o melhor de nós.

Me arrisco a dizer que, para cada música que fala de felicidade, existem 17 que falam de trsiteza.

Do lado do artista, parece que quando alguma coisa está errada temos uma necessidade maior de nos expressar, botar para fora, pedir ajuda. Quando tudo está bem não temos muito o que dizer. Até escondemos um pouco nosso entusiasmo com medo de atrair inveja.

Do lado do público, também imagino que a tristeza venda mais. Quando temos um problema é bom saber que não somos os únicos, que muitos já sofreram do mesmo mal e musicaram seu sofrimento para que nós nos sintamos menos sozinhos na dor. Quando estamos bem, ao contrário, não precisamos ouvir outros exemplos de pessoas que tiveram a mesma sorte que nós. Na derrota nós precisamos de companhia, na vitória não.

Pois eu já desclassifiquei o morro, e reneguei ao samba. Parabéns a ela. Aposentei o cavaquinho, engavetei o agogô, botei o surdo pra vender, e mudo sofri. Pedi perdão ao samba, pedi que me escutasse, que me redimisse. Descobri que o grande amor mora entre o cantar do bandolim e o tombo sóbrio do tambor. O samba me escutou, e me deu a canção. Obrigado, ó samba, tronco maior de toda a arte brasileira.

Passada a agrura, não há muito mais o que dizer. Voltei a compor logo depois, com o discernimento que só o tempo e a distância são capazes de dar, quase que tentando entender melhor o que me ocorrera, tentando acreditar que guardo as coisas bonitas no meu coração.

Hoje está tudo bem. Estou aqui nos bastidores do meu futuro, esperando o show começar, e passo meu tempo entre os episódios de Seinfeld e os tiros no Xbox. Meu teclado está aqui, mas temos nos evitado. Sabe lá o que sairia de um encontro nosso. Muito provavelmente ele permaneceria calado, ou apenas repetiria histórias de um passado remoto. Se ele quiser me dizer algo de novo, provavelmente me perguntaria sobre a solidão, ou me exigiria explicações sobre o que eu estou fazendo comigo. Em qualquer dos casos eu sei que para responder teria de vasculhar o fundo da minha alma.

Deixo ele lá. Música triste é pra fazer cercado de amigos.

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